segunda-feira, 3 de outubro de 2011

RENTES O FINGIDOR

Um dia, numa escola da cidade, um dos funcionários encontrou um desconhecido junto da cantina a olhar, apalermado, através das vidraças. Houve um tempo em que por cá se construíam escolas como o partido daquele saudoso político da nossa praça: «com paredes de vidro». Quanto ao partido, sempre duvidei da real diafaneidade dessas paredes, já quanto à escola, eu mesmo posso testemunhar, as paredes eram mesmo transparentes, de modo que o intruso podia ver tudo o que lá dentro se passava. O funcionário abordou o desconhecido informando-o que não podia permanecer ali. O homem encarou-o com olhar assombrado e, sem dar mostras de ter ouvido o que funcionário lhe tinha dito, começou a balbuciar que «não o conhecia». Referia-se ao filho: «Estou aqui a apreciar o comportamento dele e só tenho a dizer que não o conheço. Se não o tivesse visto e se me tivessem dito que ele fazia isto não teria acreditado». O filho divertia-se a fazer toda a sorte de patifarias que o pai jamais pensou um filho seu ser capaz de fazer. E, sem conseguir livrar-se daquele ar aterrado, concluiu: «ele em casa não é nada disto».
Lembrei-me deste episódio quando na última sexta feira ouvi o escritor J. Rentes de Carvalho na Biblioteca Municipal de Viana. Rentes de Carvalho que, mau grado ter nascido em Vila Nova de Gaia, vai para oitenta anos, gosta de reivindicar para si a posse de uma costela transmontana provando-o com complexos cálculos aritméticos, é um escritor consagrado na Holanda, onde vive há mais de meio século, mas quase desconhecido por cá, onde apenas há dois ou três anos a sua obra começou a ser realmente tratada como merece. Uma das suas primeiras obras editadas em Portugal, com quinze anos de atraso, diga-se, foi Tempo Contado. O livro é, na realidade, um diário onde, durante um ano inteirinho, entre 1994 e 1995 o escritor anota, religiosamente, “os casos do dia”. Foi com este livro que tomei conhecimento do autor. Lendo-o, sendo este um diário, comecei a criar o retrato do artista: um homem avinagrado e lúgubre, constantemente zangado, sem paciência, com pouco sentido de humor, enfim, um ser pouco menos que irascível. Ouvindo-o na Biblioteca senti-me como se teria sentido o pai na cantina da escola, observando horrorizado as tropelias do filho: não o conheço, ele em casa não é nada disto. A sala estava cheia e nunca por lá terá passado alguém que tivesse criado tal empatia com o público como ele. Talvez que como o poeta, Rentes de Carvalho seja um fingidor, aliás foi-o reconhecendo ao longo da sessão, o certo é que conseguiu estilhaçar a imagem que dele tinha começado a criar ao longo da leitura do Tempo Contado e de La Coca. Futuramente terei de ter mais cuidado com as entrelinhas do texto; talvez isso me livre destes embaraços.

carlos ponte

Fotos d' A conversa com... J. Rentes de Carvalho

Dia 30 de Setembro, às 21.30 horas, na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo.
 





 

Testemunho de J. Rentes de Carvalho

Testemunho do escritor J. Rentes de Carvalho relativo à sessão realizada no passado dia 30 de Setembro, na Biblioteca Municipal.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

À conversa com... J. Rentes de Carvalho

Dia 30 de Setembro, às 21.30 horas, na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, vamos estar À conversa com... J. Rentes de Carvalho, a propósito do seu livro intitulado "La Coca".




O Autor
De ascendência transmontana, J.Rentes de Carvalho nasceu em 1930, em Vila Nova de Gaia, onde viveu até 1945. Frequentou no Porto o Liceu Alexandre Herculano, e mais tarde os de Viana do Castelo e de Vila Real, tendo cursado Românicas e Direito em Lisboa – onde cumpriu o serviço militar. Obrigado a abandonar o país por motivos políticos, viveu no Rio de Janeiro, em São Paulo, Nova Iorque e Paris, trabalhando para jornais como O Estado de São Paulo, O Globo ou a revista O Cruzeiro. Em 1956 passou a viver em Amesterdão, na Holanda, como assessor do adido comercial da Embaixada do Brasil. Licenciou-se (com uma tese sobre Raul Brandão) na Univ. de Amesterdão, onde foi docente de Literatura Portuguesa entre 1964 e 1988.

Dedica-se desde então exclusivamente à escrita e a uma vasta colaboração em jornais portugueses, brasileiros, belgas e holandeses, além de várias  revistas (...)



La Coca
Manuel Galeano - que sempre tivera  "o contrabando no sangue" - sumiu  antes do segundo encontro.  Inesperadamente, como cruzara o  caminho do seu velho conhecido em Amesterdão. O primeiro encontro, seguido de uma conversa saborosa no bar de um hotel, cheia de memórias de juventude e de algumas confidências do presente, é o ponto de partida para uma longa evocação e uma viagem sentimental: da história do tráfico entre o Minho e a Galiza - tráfico de cigarros, uísque, barras de ouro, gado e café e mais recentemente de narcóticos - e os seus protagonistas - Diogo Romano, El Min, Sito Miñano, o Pardal, o Pepe, Mustafé e o Laurestim-, que durante décadas enformaram o imaginário pícaro local; e a viagem de revisitação que o autor deste livro faz aos lugares da infância e da primeira idade adulta.

"!La Coca" é também uma investigação literária - que se materializa neste livro - e um pequeno tratado dos mecanismos da memória. Um romance breve, profundamente irónico e terno. E a escrita clara, brilhante, de Rentes de Carvalho.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

eNcaminha / Na Praça


Subi ontem à torre.
Enquadrada entre os merlões, pintada pela barraquinha dos legumes e invadida por chapéus-de-sol, parece de todo inoportuno chamar à Praça outros condimentos.
Incontornável…
Ocorre-me “El Min”.
Personagem real, quase lendária, com história curta mas fora de série. Assim se lhe refere J. Rentes de Carvalho em La Coca. Armado de correntes entremeadas de porcas de aço, “El Min” terá aqui assaltado, em plena Praça, um conhecido jornalista, especializado em casos de tráfico de droga.  
Ali, nas barbas do Chafariz… todo ele evocação de navegações e navegantes, curiosamente os mesmos que aqui fizeram chegar a Erva Sancta, que o Contrato do Tabaco, submetendo o seu comércio ao regime de monopólio estatal , há-de empurrar para o contrabando.

Dom Pedro por graça de Deos rey de Portugal e dos Algarves, d´áquem, e d´além Mar em África, Senhor da Guiné, e da Conquista, Navegação, Commércio da Ethiópia, Arábia, Pérsia e da Índia &c. Faço saber […] aos que este meu Alvará de Ley virem, que pela grande utilidade que se segue a meus Povos de conservar e aumentar o rendimento do Estanco do Tabaco, pois por esse effeito […] ficarão aliviados de outras contribuições, que pedião as necessidades do Reyno, e por essa mesma razão convem ao bem publico, evitar todos os meyos, que podem ser damnosos ao dicto rendimento […] [1]


[1] Alvará de Ley de 21 de Junho de 1703.


Reconhecendo-lhe alguns carácter sagrado, mágico e ritualista e outros um alto valor terapêutico, acesa terá sido a discussão, a crítica e repressão à volta desta exótica novidade e quando a suspeita de que a sua utilização diminuía a virilidade assustou o Poder, (sempre tão necessitado de peões para o xadrez da guerra) de pronto endureceu a repressão.

Contudo, cientes de que o que se veda e proíbe mais apetecido se torna […] governantes e Igreja intuem por fim uma radical mudança de estratégia, substituindo as medidas até então repressivas por outras mais pragmáticas: 
No ano de 1629 o Cardeal Richelieu estabelece o primeiro imposto sobre o Tacabo, e nem 50 anos serão passados e já Colbert surge como o primeiro inspirador do monopólio do fabrico e da venda, (decretado em 1674).

Entre nós, para que venha à notícia de todos, e se não possa allegar ignorância, o Alvará em forma de Ley, de 21 de Junho de 1703, será objecto de Edital enviado ao Administrador Geral de cada Distrito que o participará a todas as autoridades suas subalternas […] para seu conhecimento e execução.

No mostruário das flores existentes neste planeta, sobressai, uma planta solanácea, vulgo tabaco […] que se impôs graças, por um lado, aos seus modos insinuantes de consumo (cachimbo, rapé, charuto, cigarro) e, por outro, aquela “ prodigiosa química, com que pó e fumo, em prata e ouro se convertem (Pe Rafael Bluteau) [2].

LC/Agosto 2011


[2] Silva, A.(1986). A censura do Tabaco do Padre Jerónimo da Mota e dois escritos de Ribeiro Sanches (separata de Brácara Augusta – revista cultural de Regionalismo e Historia da Câmara Municipal de Braga, vol XXXIX de 1985, nº 87-88, p.10). Braga: ADB/UM 


quarta-feira, 27 de julho de 2011

NÃO É POETA QUEM QUER...

- […] Então você […] que passa a vida a traduzir livros não podia também escrever um?
- Era preciso que tivesse talento para isso. […] eu sei que todos os dias aparecem por aí novos escritores, ou quanto mais não seja candidatos a escritores, mas, para ser franco, duvido muito da qualidade da esmagadora maioria deles… […] Sabe, […] para se ser escritor é preciso possuir talento, disponibilidade mental, espírito de sacrifício, cultura literária, e… boas histórias para contar. Porque ao contrário do que dizem [as pessoas], as suas vidas não dariam qualquer romance, talvez nem uma página. E há outro elemento, muito importante, que […] não referi: para se escrever um livro […] é preciso que o autor tenha também mundividência. Ora o que mais vemos por aí é gente sem mundo, sem conhecimento de coisa nenhuma ou de muito pouco, a escrever livros com a mesma facilidade de quem escreve mensagens para os amigos nas redes sociais.

[…] nas últimas décadas o populus deitou-se a escrever, ciente de que as balbúcias do ego são uma expressão de arte; que dos espasmos da bebedeira, da anorexia nervosa, do incesto, do amor aos cães, da ecologia – de tudo, afinal, mesmo os espíritos mais simples podem tirar um livro […]. E os editores editam, […] o populus admira-se e regozija-se consigo próprio.

José Manuel Saraiva foi o último convidado de “à conversa com…”. O primeiro extracto pertence ao seu livro “A Terra Toda”. Depois de ouvir o autor, é lícito concluir que a obra tem pelo menos alguma coisa de autobiográfico. J. Rentes de Carvalho será o próximo convidado da tertúlia. O segundo extracto pertence ao seu livro “Tempo Contado”, um diário onde, entre 15 de Maio de 1994 - dia que marca o início do último ano da sua meia-idade - e 15 de Maio de 1995, anota «os casos do dia». Vá lá saber-se porquê, ao deparar-me com estas linhas não consegui deixar de pensar que ambos estavam a falar de um ou dois figurões que em tempos passaram também por cá. Por mais que force a memória não consigo que a ela assome um nome sequer mas tenho quase a certeza que era deles que falavam.

carlos ponte