segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

À conversa com ... Eugénio Lisboa

Impressão deixada por Eugénio Lisboa a propósito da conversa realizada, no dia 17 de Fevereiro, na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

RÉGIO E O ANIVERSÁRIO DO CLUBE

No início do mês que vem – a escrevedeira-mor no-lo lembrou - o Clube fará um ano. Um ano dos grandes, dos de trezentos e sessenta e seis dias. Isto, claro está, se entretanto os sábios da John Hopkins não levarem a sua avante e nos privarem de bissextos e de comuns. É costume, numa agremiação que se preze, fazer-se um balanço do trabalho realizado passados que são os primeiros cem dias de vida. Não que a nossa agremiação não se preze, que se preza, mas, cem dias passados e ainda não haveria obra que se visse, de modo que o balanço ficaria para um número mais redondo: um ano.
Um naco da última tertúlia gastámo-lo a alinhavar o programa das festas, no resto falamos de José Régio. O clube, posso afiançá-lo, é formado por gente que estima os livros, pessoas de boas leituras, mas, e isso terei de reconhecer, não especialmente criativas: a comemoração far-se-á em Vila do Conde à volta dos crucifixos do Régio e da mesa do Bento.
Tudo isto me trouxe à memória uma história mirabolante contada por Bruce Chatwin no inolvidável “Na Patagónia”. Bruce Chatwin, que nasceu em 1940, passou a infância no temor constante dos efeitos da «densa acumulação de nuvens azuis a cuspir labareda» da bomba de cobalto de Estaline. Grande parte das energias consumiu-as a engendrar um plano que o livrasse da aniquilação. A guerra, concluiu, seria no hemisfério Norte. Perscrutando os ventos dominantes e o trajeto provável das nuvens radioativas e estudando atentamente os Atlas, concluiu que a Patagónia seria o lugar mais seguro da Terra. Foi então que, inopinadamente, Estaline morreu. Chatwin cantou hinos e hossanas mas, avisado, continuou a guardar a Patagónia como reserva. Fez bem! Muitos anos mais tarde, haveria de calcorrear a região em busca de um animal mitológico e contá-lo no mais belo livro de viagens que conheço.
Vou seguir o seu conselho: guardarei a Patagónia como reserva. Nunca se sabe quem será o convidado quando, daqui a um ano, o clube se debruçar sobre o programa de aniversário, convencido que estou que, fizéssemos anos um mês antes e, em vez dos crucifixos do Régio, estaríamos agora, com certeza, a franquear a entrada da gruta do milodonte ou a apreciar o azul soberbo do Perito Moreno.


carlos ponte

sábado, 4 de fevereiro de 2012

À conversa com... EUGÉNIO LISBOA

Dia 17 de Fevereiro, às 21.30 horas, na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, vamos estar À conversa com... Eugénio Lisboa, a propósito do seu livro intitulado "Ler Régio".









Eugénio Lisboa
ensaísta e crítico literário português

Nascido em Lourenço Marques (Moçambique), em 1947 vai para Lisboa por força da sua formação académica e das obrigações do serviço militar. Licenciou-se em 1953 em Engenharia Elctrotécnica, pelo Instituto Superior Técnico. Em 1976, vai para França onde é adjunto do director mundial de exploração na Compagnie de Française des Pétroles. O ramo petrolífero foi a sua especialidade profissional durante vinte anos (1958-78). Mas, entre 1974-78, acumulou essa actividade com a docência, que exerceu nas Universidades de Lourenço Marques, Pretória (1974-75) e Estocolmo (1977-78), onde regeu cursos de Literatura Portuguesa. Na Suécia foi também o coordenador do ensino da língua portuguesa. Diplomata, exerceu, durante dezassete anos consecutivos (1978-95), o cargo de conselheiro cultural junto da Embaixada de Portugal em Londres e presidiu à Comissão Nacional da UNESCO de 1996 a 98.
Crítico e ensaísta, dedicou exigente atenção à obra de José Régio a partir de José Régio: Antologia, Nota Bibliográfica e Estudo (1957). Ainda em Moçambique, co-dirigiu com Rui Knopfli cadernos literários de jornalis desafectos ao regime, casos de A Tribuna e A Voz de Moçambique. A generalidade dos ensaios que escreveu e publicou em Moçambique foram coligidos nos dois volumes de Crónica dos Anos da Peste (1973 e 1975; tomo único desde 1996). Fez teatro radiofónico no Rádio Clube de Moçambique, a partir de textos de Jean Racine, Ibsen e José Régio. Colaborou em numerosas revistas e jornais moçambicanos - Diário de Moçambique, Notícias da Beira, Objectiva, Paralelo 20 - e portugueses - Jornal de Letras, A Capital, Diário Popular, O Tempo e o Modo, Colóquio-Letras, Nova Renascença, Oceanos, Ler, entre outras. É professor da Universidade de Aveiro.
É Doutor Honoris Causa pela Universidade de Nottingham, do Reino Unido (1988). Foi distinguido com o grau Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.
Eugénio Lisboa usou os pseudónimos Armando Vieira de Sá, John Land e Lapiro da Fonseca.


A Obra
Ler Régio

Avesso a escolas, a capelinhas e a catecismos, Régio, a um tempo, inovador e tradicional,pessoal e universal (e só, do particular, se arranca, em arte, para o geral), introspectivo e aceradoobservador da realidade circundante, realista e místico, terra-a-terra e mítico, egoísta e generoso, recorta,no nosso panorama cultural, uma figura de uma riqueza e complexidade de que não existem muitasequivalentes. Em pouco mais de uma dezena de anos (próximos passados), o autor deste livro escreveuumas três dezenas de textos — não poucos motivados pelo centenário do nascimento de José Régio —,que agora se recolhem neste livro. Figura ímpar na literatura portuguesa de todos os tempos e do séculoxx, em particular, o seu (de Régio) estudo não tem sido descurado. É um cliché sem fundamento dizer-seque a literatura do autor de Benilde tem andado a fazer uma travessia do deserto. Uma consulta, mesmosuperficial, à bibliografia passiva disponível contraria esta asserção. Este livro pretende apenasacrescentar-se a esse vasto e rico acervo e não preencher um vazio inexistente.





quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

VOU ACRESCENTÁ-LO À MINHA LISTA

Talvez não seja uma pessoa de hábitos muito arreigados, ocorre-me agora. Em tempos visitei amiúde um blog gerido por certo engenheiro reformado do IST. Engenheiro do IST como não se cansava de nos recordar, lembrando-se, talvez, de um outro engenheiro de uma outra faculdade que, não lhe ganhando em sapiência, é certo, ganhar-lhe-ia, com toda a certeza, em notoriedade. Dizia eu que costumava visitar o engenheiro mas já há tempos que não passo lá por casa. Fez por estes dias dois anos. O engenheiro lançou, como aliás o fazia frequentemente, um desafio aos seus leitores que, a julgar pela rapidez com que os algarismos daqueles contadores de visitantes avançavam nas ordens rumo às classes, seriam imensos. Os leitores eram desafiados a indicarem num  pequeno texto, o livro de Erico Veríssimo que recomendariam a alguém que desconhecesse a obra do escritor, explicando a razão da sua escolha. E eu que estava a fim de aceitar de bom grado o desafio vi-me, de repente, perante um problema irresolúvel que deitava por terra qualquer veleidade que, eventualmente, pudesse ainda acalentar sobre o assunto: nunca tinha lido qualquer obra do brasileiro!
Mas, pensando melhor, não seria este pormenor que me demoveria. E lá respondi ao desafio, confessando as minhas insuficiências. Findo o prazo dado pelo organizador um júri reunia para apreciar as respostas e as melhores recebiam prémios: livros com uma artística dedicatória do engenheiro. No desafio do Érico os jurados decidiram premiar um concorrente que aconselhou o primeiro volume do “Tempo e o Vento” que disse ter lido durante uma noite, das onze às sete, terminando ainda a tempo de se vestir e ir para as aulas – não consegui apurar se o júri premiou a rapidez da leitura ou a recomendação da obra -, uma concorrente que aconselhou, também, o “Tempo e o Vento” que disse, nostálgica, trazer-lhe à memória os tempos em que viveu no Brasil, e, talvez como forma de incentivo à leitura, um terceiro concorrente que não tendo lido nada de Veríssimo, prometia fazê-lo.
Hoje Érico Veríssimo já não engrossa a minha lista dos autores à espera de serem descobertos. Entretanto, uma querida amiga, talvez condoída por essa falta imperdoável, emprestou-me o “Olhai os Lírios do Campo” que li embevecido pelo conteúdo e preocupado com a carneira da encadernação e os dourados da lombada.
Lembrei-me desta pequena história durante a leitura do “Ler Régio” de Eugénio Lisboa. Nunca li nada do José Régio – não teve comigo melhor sorte que o gaúcho – mas, por cada página que leio do Lisboa, mais cresce em mim a vontade de o conhecer.
Vou acrescentá-lo à minha lista.
carlos ponte


Post Scriptum: Mau grado a extensão e o ecletismo da sua obra, Régio é um autor esquivo. Ele que vezes sem conta confidenciava aos amigos a amargura de não ser reconhecido, «estas coisas envenenam-me», dizia, nunca foi homem de procurar as luzes da ribalta: talvez que o despeito o não permitisse. À semelhança daqueles catos do deserto que apenas nos mostram o esplendor das suas flores muitas décadas depois, parecendo com isso testar a paciência dos homens, também José Régio se mostra comedido refutando sempre a exposição excessiva. A editora podia ajudar mas nem por aí: todos os seus títulos estão esgotados, ou, para utilizar uma linguagem comercial muito em voga, descontinuados.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

COM EUGÉNIO LISBOA


        
           Já iniciei Ler Régio e, como gosto do género, admiro Eugénio Lisboa e considero José Régio um dos nossos grandes injustamente esquecido, está a ser um prazer. Além do mais, por dever profissional,    estou a ler uns textos intragáveis. Por tudo isto, fiquei com uma vontade enorme de ler e, em alguns casos, reler os dois autores.
             Há muito tempo que tinha na fila de espera Portugaliae Monumenta Frivola,(2000), de Eugénio Lisboa, com um complemento de título sugestivo – ou as verdadeiras e as falsas riquezas (Escritos ligeiros de proveito e exemplo, crónicas, páginas de polémica, entrevistas e outro pão partido em pequeninos). Folheei os artigos e, para vos aguçar o apetite, resolvi compartilhar umas frases extraídas do escrito Levar livros para férias. Deliciem-se:
                       
                Lembrei-me hoje de falar num curioso exercício que se pratica mais ou menos em todo o mundo: o que consiste em perguntar a escritores, artistas, actores e, de um modo geral, a personalidades mais ou menos em evidência, sem esquecer os políticos, que livros tencionam levar para férias. As respostas, quase sem excepção, compõem, entre nós, uma paisagem deliciosamente burlesca. E deixam-nos, acima de tudo, com uma terrível angústia – se nela acreditarmos… - pela dose de masoquismo militante que a nossa sociedade consome. O que aquela gente deve sofrer em férias! Como se deve regressar ao trabalho dez vezes mais estafado do que se estava ao partir de férias! (..)

                Nisto de livros que lemos (ou dizemos que lemos, todo o cuidado é pouco. Nada de nos fiarmos no nosso próprio instinto ou no prazer real que os livros nos dão. Há, sobretudo, que andar informado. Há livros e autores que «andam no ar», embora não convenha que andem demasiado. (…)

               Nunca cite Régio – por enquanto. Quando voltar a ser possível, aviso-o.

              Tenho pena de ter perdido uma frase sua sobre determinado best seller – ou como dizia Alexandre O’Neill, citado por Pedro Mexia, na revista Ler, besta célere… - da nossa praça. Pode ser que ainda a encontre…
               Leiam, leiam muito.
                                   Isabel Campos