quinta-feira, 8 de março de 2012

ELAS ESPALHAM A DESORDEM

Elas tecem o desacato com engenho, na mansa lentidão dos dias; tão depressa suspiram maleitosas, ensimesmadas e aflitas, como em tudo inventam supérfluos motivos de riso e de alegria.
Elas cantam, rodopiam, dançam, interpretam peças maliciosas e declamam poemas.
Elas confrontam-nos com o rasto do mal, usando perfumes de gardénia, de nardo e de almíscar, odores doces e turvos, a fazerem esvoaçar a roda das saias folhadas, rendadas.
Elas usam nos lábios e nas faces o carmim das rosas selvagens, pondo igual desvario nas vestes e nas ideias.
Elas são altivas e vaidosas, escrevem poesia, discutem filosofia, lêem livros proibidos.
Elas tresandam a heresia com as suas atitudes e ideias pervertidas; provocam com estouvamentos e arroubos.
Elas gostam do luxo.
Elas trazem consigo ideais perigosos, instruem-se, estudam, perseguem a utopia, na constante busca extremada da Luz, em busca do atordoamento do novo.
Elas cultivam a desobediência e os rancores, sarcásticas e vingativas. Regem-se por regras próprias.
Elas questionam os dogmas, duvidam da fé, não cortam a raiz da tentação e das dúvidas.
Elas espalham a desordem.


Adaptado de “As Luzes de Leonor” de Maria Teresa Horta


Leonor de Almeida Portugal, neta dos marqueses de Távora, após o nebuloso processo que devastaria a sua família, foi enclausurada no convento de Chelas, juntamente com a mãe e a irmã, contava, então, oito anos de idade. Por lá ficariam durante dezanove anos até à morte do Rei D. José e ao consequente afastamento de Sebastião José de Carvalho e Melo. O marquês de Pombal tentava, deste modo, calar a descendência dos marqueses de Távora mas Leonor, amante da liberdade e ávida de Luz nunca se aquietou nos espaços lúgubres de Chelas não dando descanso à madre superiora que, vezes sem conta, se queixou ao bispo de Lacedemónia do comportamento indecoroso daquelas em que «corria nas veias sangue envenenado e ruim dos Távoras». Sirvo-me de uma das queixas da prioresa para render a minha singela homenagem a todas as nossas fortes mulheres que, perante as dificuldades, se recusam a claudicar.

carlos ponte

terça-feira, 6 de março de 2012

OS LEGIONÁRIOS DO HOTEL BELLEVUE

Corria o ano de 1976. No distinto Hotel Bellevue-Sratford, em Filadélfia, mais de 200 veteranos da American Legion reuniam-se em congresso. Por essa altura começou a verificar-se a morte de algumas pessoas que em comum tinham o facto de serem legionários e terem assistido ao congresso de Filadélfia. De início dispensou-se ao assunto a importância que ele, realmente, tinha – que diabo, nem mesmo os legionários são eternos – mas, quando o número de óbitos começou a subir invulgarmente, as autoridades sanitárias começaram a averiguar. De início aventou-se a hipótese de uma nascente pandemia de gripe, hipótese descartada pouco depois, verificada a inexistência dos sintomas corriqueiros. Passou-se ao envenenamento por metais: este seria, com toda a certeza, a causa de tamanha desgraça. Novos exames e a descoberta que, se metais havia – e havia realmente -, estes tinham sido deixados pelos instrumentos dos médicos que se afadigavam na descoberta da origem do mal. E assim, entre promessas de pandemias e vestígios de níquel se consumiram seis longos meses. Só ao fim deste tempo se descobriu a esquiva bactéria que tinha reclamado já a vida de trinta dos congressistas: uma bactéria que se alojaria nos sistemas de ar condicionado do edifício, a legionella pneumophila. O Hotel Bellevue-Sratford já não existe, não conseguiu sobreviver à nefasta publicidade trazida pela bactéria e foi transformado em escritórios e condomínios privados; dos legionários de setenta e seis poucos sobrarão, mas para todo o sempre a doença provocada pela legionella pneumophila continuará a levar o romântico nome de Doença do Legionário.
Ontem, ao olhar, embevecido, as fotografias do primeiro aniversário do Clube lembrei-me dos legionários do Hotel Bellevue-Stratford. Olho o grupo imenso encostado à parede da antiga Alfândega de Vila do Conde e imagino os velhos lealistas a inflacionarem antigas aventuras e a jurarem eterno amor à pátria, entre duas idas à casa de banho. Mas não se apoquentem, camaradas – não se apoquentem nem se amofinem -, porque desde sempre que a minha imaginação me vem pregando partidas.


carlos ponte

segunda-feira, 5 de março de 2012

A Passarada fez um ano

Passou, rapidamente, um ano de alegre, saudável e estimulante convívio. Finais de tarde esvoaçantes, gorjeios mil e algumas bicadas…
No sábado passado, voámos para sul – ao contrário das nossas irmãs que estão a vir para norte – até Vila do Conde para homenagear José Régio – um pássaro de se lhe tirar o chapéu.
Já vi todas as fotografias que por aí esvoaçam. A Passarada ficou muito bem, com as penas muito reluzentes, com um sorriso a todo o comprimento do bico. Gostei de ver. Nota-se que apreciaram a saída e os sítios que visitaram. Não se vê nas reportagens – e foram tantas as vezes que disseram: Olha o passarinho! – mas o painço do almoço também foi do agrado geral. A organização esteve excelente. Aliás, aproveito para sugerir que o Bento seja eleito o pássaro-organizador de qualquer iniciativa do género.
Estiveram todos – a Lavandisca, o Gavião, o Melro, a Rola-brava, o Pintarroxo, a Carriça, o Tentilhão, o Rouxinol, do bando dos mais antigos, e a passarada mais recente, como a Garça-real, a Alvéola-amarela, a Narceja, o Bico-de-lacre, o Chamariz milheirinho, a Cotovia-de-poupa, o Pisco-de-peito-ruivo e esta vossa,

Escrevedeira

P.S. A Leonor era uma ave de se lhe tirar o chapéu. Estou a adorar. A Teresa não lhe fica nada atrás.

domingo, 4 de março de 2012

I Aniversário do Clube de Leitura

O Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo comemorou o seu primeiro aniversário no sábado, dia 3 de Março. Motivados pela última conversa com Eugénio Lisboa, a propósito do seu livro Ler Régio, os membros do Clube (e mais alguns convidados) rumaram a Vila do Conde a Casa de José Régio e ao Centro de Documentação, situado no edifício contíguo à casa deste escritor e poeta.

… a viagem, foi primorosamente organizada pelo nosso colega José Bento.



... chegados a Vila do Conde, fomos conhecer o Centro de Documentação José Régio



Aqui, funciona o Centro de Estudos Regianos, um espaço de recepção e acolhimento aos visitantes, uma sala de exposições, um local destinado a actividades com vista à divulgação da vida e obra do poeta, para além de uma sala polivalente onde se apresenta um pequeno documentário sobre Régio e que antecede a visita ao espaço de residência.

Seguiu-se a visita à Casa onde José Maria dos Reis Pereira (José Régio) nasceu, a 17 de Setembro de 1901.


Apesar do dia chuvoso, praticamente todos marcaram presença…

Depois do almoço, ainda houve tempo para visitar a exposição permanente no edifício da Alfândega Régia, convertido em Museu da Construção Naval, e que ainda hoje mantém a traça original...

e entrar a bordo da Nau Quinhentista, ancorada em pleno coração da zona ribeirinha de Vila do Conde, onde outrora existiram os estaleiros navais.


Aí, tivemos a oportunidade de conviver com os tripulantes que estavam a bordo
... e conhecer o capitão, o piloto, o escrivão, o capelão, o boticário, o timoneiro, o marinheiro, o grumete, o bombardeiro e a passageira que viajava para a Índia sob a protecção “d’el rei” para constituir família.
… imaginarmo-nos membros da tripulação

… e trocar impressões sobre a vida a bordo.
No final da visita, não esquecemos a foto de grupo
…e, à chegada, fomos brindados pela nossa amiga Glória com um delicioso bolo (tradicional de Mirandela?) e só não cantamos os parabéns porque estávamos na Biblioteca!
   



Para o ano, de certeza que haverá mais…
rui faria viana


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

RÉGIO E O ANIVERSÁRIO DO CLUBE

No início do mês que vem – a escrevedeira-mor no-lo lembrou - o Clube fará um ano. Um ano dos grandes, dos de trezentos e sessenta e seis dias. Isto, claro está, se entretanto os sábios da John Hopkins não levarem a sua avante e nos privarem de bissextos e de comuns. É costume, numa agremiação que se preze, fazer-se um balanço do trabalho realizado passados que são os primeiros cem dias de vida. Não que a nossa agremiação não se preze, que se preza, mas, cem dias passados e ainda não haveria obra que se visse, de modo que o balanço ficaria para um número mais redondo: um ano.
Um naco da última tertúlia gastámo-lo a alinhavar o programa das festas, no resto falamos de José Régio. O clube, posso afiançá-lo, é formado por gente que estima os livros, pessoas de boas leituras, mas, e isso terei de reconhecer, não especialmente criativas: a comemoração far-se-á em Vila do Conde à volta dos crucifixos do Régio e da mesa do Bento.
Tudo isto me trouxe à memória uma história mirabolante contada por Bruce Chatwin no inolvidável “Na Patagónia”. Bruce Chatwin, que nasceu em 1940, passou a infância no temor constante dos efeitos da «densa acumulação de nuvens azuis a cuspir labareda» da bomba de cobalto de Estaline. Grande parte das energias consumiu-as a engendrar um plano que o livrasse da aniquilação. A guerra, concluiu, seria no hemisfério Norte. Perscrutando os ventos dominantes e o trajeto provável das nuvens radioativas e estudando atentamente os Atlas, concluiu que a Patagónia seria o lugar mais seguro da Terra. Foi então que, inopinadamente, Estaline morreu. Chatwin cantou hinos e hossanas mas, avisado, continuou a guardar a Patagónia como reserva. Fez bem! Muitos anos mais tarde, haveria de calcorrear a região em busca de um animal mitológico e contá-lo no mais belo livro de viagens que conheço.
Vou seguir o seu conselho: guardarei a Patagónia como reserva. Nunca se sabe quem será o convidado quando, daqui a um ano, o clube se debruçar sobre o programa de aniversário, convencido que estou que, fizéssemos anos um mês antes e, em vez dos crucifixos do Régio, estaríamos agora, com certeza, a franquear a entrada da gruta do milodonte ou a apreciar o azul soberbo do Perito Moreno.


carlos ponte