No dia 30 de Março, a conversa com Maria Teresa Horta foi assim:
segunda-feira, 2 de abril de 2012
quarta-feira, 21 de março de 2012
DIA DA POESIA
Embora seja um poema muito conhecido, nesta altura conturbada em que se pensa pouco e menos se dá a nossa opinião, principalmente quando estamos em minoria, um poema que Sophia de Mello Breyner Andresen dedicou a Franciso Sousa Tavares:
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Isabel Campos
terça-feira, 20 de março de 2012
RECOMENDA-SE...
Duas recomedações para hoje:
Injustiças da vida
Saiu, já em 2008, a Primeira antologia de micro-ficção portuguesa, com textos muito pequenos, mas interessantíssimos. Apenas um cheirinho do que podem encontrar:
Desde criança que o seu sonho era ser assassino profissional. Acabou por se matar na adolescência com um tiro na cabeça, ainda por cima de borla. Um final trágico que ceifou uma carreira promissora.
O primeiro amor
Com o passar dos anos, o ursinho de peluche foi trocado por um lego, o lego foi trocado por um livro, o livro foi trocado por uma consola, a consola foi trocada pelo primeiro amor, o primeiro amor foi trocado por uma mulher, a mulher foi trocada pelos filhos, os filhos foram trocados pelo trabalho, o trabalho foi trocado pela solidão, a solidão foi trocada pelo ursinho de peluche. Um homem regressa sempre ao seu primeiro amor.
2ª recomemdação - Carlos vaz Marques, na TSF, de segunda a sexta, às 09h50, 14h50 e 18h50, O livro do dia. Para ouvir e ler.
Isabel Campos
terça-feira, 13 de março de 2012
À conversa com... Maria Teresa Horta
Dia 30 de Março, às 21.30 horas, na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, vamos estar À conversa com... Maria Teresa Horta, a propósito do seu livro "As Luzes de Leonor".
As Luzes de Leonor
Leonor de Almeida Portugal, neta dos marqueses Romance de Távora, e que viria a ser a 4.a marquesa de Alorna, foi enclausurada em 1758, com a mãe e a irmã, no convento de S. Félix, em Chelas, por ordem do futuro marquês de Pombal. Tinha 8 anos. Saiu com 27, precedida pela fama da sua beleza, Luzes e talento poético. Admirada na Corte, torna-se valida da Rainha D. Maria, que apadrinha o seu casamento – contrariado pelo pai – com o conde de Oeynhausen, oficial alemão ao serviço do exército português. Leonor obtém para o marido o cargo de embaixador de Portugal em Viena de Áustria, abrindo para si as portas da Europa civilizada. De passagem por Paris e na capital austríaca, torna-se notada nos salões mais cultos. Convive com Maria Antonieta e sua mãe, a imperatriz Maria Teresa. Sempre rodeada de livros e cadernos, percorre as estradas da Alemanha, França e Espanha. Vive, arrebatada, os primeiros passos da Revolução Francesa. De regresso a Portugal, enfrenta as intrigas montadas contra ela pela mediocridade da Corte do regente D. João. Viúva desde 1793, acaba expulsa do país, em 1803, por iniciativa de Pina Manique, que via nela uma perigosa jacobina, e do embaixador francês Lannes, pressionado por Paris a agir contra a agente anti-napoleónica condessa de Oeynhausen, que entretanto se tornara amante do jovem general da Vendeia, Henri Forestier.A Autora
Maria Teresa Horta nasceu em Lisboa, onde frequentou a Faculdade de Letras. Jornalista e crítica literária, estreou-se na poesia, em 1960, com Espelho Inicial, tendo participado no ano seguinte no volume Poesia 61, com Tatuagem.
No romance surge com Ambas as Mãos Sobre o Corpo, em 1970, e no ano seguinte, conjuntamente com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, publica Novas Cartas Portuguesas, obra que valeu às autoras um processo judicial «por ofensa à moral pública» e que está editada em numerosos países. Destacam-se ainda Ema (Prémio Ficção Revista Mulheres) e A Paixão Segundo Constança H. Em 2004, foi condecorada pelo Presidente da República Jorge Sampaio com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. E, em 2010, foi distinguida com o Prémio Máxima Vida Literária pelo seu livro Poesia Reunida. O romance As luzes de Leonor, publicado em 2011, valeu à autora o “Prémio Literário D. Dinis”, instituído pela Fundação Casa de Mateus.quinta-feira, 8 de março de 2012
ELAS ESPALHAM A DESORDEM
Elas tecem o desacato com engenho, na mansa lentidão dos dias; tão depressa suspiram maleitosas, ensimesmadas e aflitas, como em tudo inventam supérfluos motivos de riso e de alegria.
Elas cantam, rodopiam, dançam, interpretam peças maliciosas e declamam poemas.
Elas confrontam-nos com o rasto do mal, usando perfumes de gardénia, de nardo e de almíscar, odores doces e turvos, a fazerem esvoaçar a roda das saias folhadas, rendadas.
Elas usam nos lábios e nas faces o carmim das rosas selvagens, pondo igual desvario nas vestes e nas ideias.
Elas são altivas e vaidosas, escrevem poesia, discutem filosofia, lêem livros proibidos.
Elas tresandam a heresia com as suas atitudes e ideias pervertidas; provocam com estouvamentos e arroubos.
Elas gostam do luxo.
Elas trazem consigo ideais perigosos, instruem-se, estudam, perseguem a utopia, na constante busca extremada da Luz, em busca do atordoamento do novo.
Elas cultivam a desobediência e os rancores, sarcásticas e vingativas. Regem-se por regras próprias.
Elas questionam os dogmas, duvidam da fé, não cortam a raiz da tentação e das dúvidas.
Elas espalham a desordem.
Leonor de Almeida Portugal, neta dos marqueses de Távora, após o nebuloso processo que devastaria a sua família, foi enclausurada no convento de Chelas, juntamente com a mãe e a irmã, contava, então, oito anos de idade. Por lá ficariam durante dezanove anos até à morte do Rei D. José e ao consequente afastamento de Sebastião José de Carvalho e Melo. O marquês de Pombal tentava, deste modo, calar a descendência dos marqueses de Távora mas Leonor, amante da liberdade e ávida de Luz nunca se aquietou nos espaços lúgubres de Chelas não dando descanso à madre superiora que, vezes sem conta, se queixou ao bispo de Lacedemónia do comportamento indecoroso daquelas em que «corria nas veias sangue envenenado e ruim dos Távoras». Sirvo-me de uma das queixas da prioresa para render a minha singela homenagem a todas as nossas fortes mulheres que, perante as dificuldades, se recusam a claudicar.
carlos ponte
Elas cantam, rodopiam, dançam, interpretam peças maliciosas e declamam poemas.
Elas confrontam-nos com o rasto do mal, usando perfumes de gardénia, de nardo e de almíscar, odores doces e turvos, a fazerem esvoaçar a roda das saias folhadas, rendadas.
Elas usam nos lábios e nas faces o carmim das rosas selvagens, pondo igual desvario nas vestes e nas ideias.
Elas são altivas e vaidosas, escrevem poesia, discutem filosofia, lêem livros proibidos.
Elas tresandam a heresia com as suas atitudes e ideias pervertidas; provocam com estouvamentos e arroubos.
Elas gostam do luxo.
Elas trazem consigo ideais perigosos, instruem-se, estudam, perseguem a utopia, na constante busca extremada da Luz, em busca do atordoamento do novo.
Elas cultivam a desobediência e os rancores, sarcásticas e vingativas. Regem-se por regras próprias.
Elas questionam os dogmas, duvidam da fé, não cortam a raiz da tentação e das dúvidas.
Elas espalham a desordem.
Adaptado de “As Luzes de Leonor” de Maria Teresa Horta
Leonor de Almeida Portugal, neta dos marqueses de Távora, após o nebuloso processo que devastaria a sua família, foi enclausurada no convento de Chelas, juntamente com a mãe e a irmã, contava, então, oito anos de idade. Por lá ficariam durante dezanove anos até à morte do Rei D. José e ao consequente afastamento de Sebastião José de Carvalho e Melo. O marquês de Pombal tentava, deste modo, calar a descendência dos marqueses de Távora mas Leonor, amante da liberdade e ávida de Luz nunca se aquietou nos espaços lúgubres de Chelas não dando descanso à madre superiora que, vezes sem conta, se queixou ao bispo de Lacedemónia do comportamento indecoroso daquelas em que «corria nas veias sangue envenenado e ruim dos Távoras». Sirvo-me de uma das queixas da prioresa para render a minha singela homenagem a todas as nossas fortes mulheres que, perante as dificuldades, se recusam a claudicar.
carlos ponte
terça-feira, 6 de março de 2012
OS LEGIONÁRIOS DO HOTEL BELLEVUE
Corria o ano de 1976. No distinto Hotel Bellevue-Sratford, em Filadélfia, mais de 200 veteranos da American Legion reuniam-se em congresso. Por essa altura começou a verificar-se a morte de algumas pessoas que em comum tinham o facto de serem legionários e terem assistido ao congresso de Filadélfia. De início dispensou-se ao assunto a importância que ele, realmente, tinha – que diabo, nem mesmo os legionários são eternos – mas, quando o número de óbitos começou a subir invulgarmente, as autoridades sanitárias começaram a averiguar. De início aventou-se a hipótese de uma nascente pandemia de gripe, hipótese descartada pouco depois, verificada a inexistência dos sintomas corriqueiros. Passou-se ao envenenamento por metais: este seria, com toda a certeza, a causa de tamanha desgraça. Novos exames e a descoberta que, se metais havia – e havia realmente -, estes tinham sido deixados pelos instrumentos dos médicos que se afadigavam na descoberta da origem do mal. E assim, entre promessas de pandemias e vestígios de níquel se consumiram seis longos meses. Só ao fim deste tempo se descobriu a esquiva bactéria que tinha reclamado já a vida de trinta dos congressistas: uma bactéria que se alojaria nos sistemas de ar condicionado do edifício, a legionella pneumophila. O Hotel Bellevue-Sratford já não existe, não conseguiu sobreviver à nefasta publicidade trazida pela bactéria e foi transformado em escritórios e condomínios privados; dos legionários de setenta e seis poucos sobrarão, mas para todo o sempre a doença provocada pela legionella pneumophila continuará a levar o romântico nome de Doença do Legionário.
Ontem, ao olhar, embevecido, as fotografias do primeiro aniversário do Clube lembrei-me dos legionários do Hotel Bellevue-Stratford. Olho o grupo imenso encostado à parede da antiga Alfândega de Vila do Conde e imagino os velhos lealistas a inflacionarem antigas aventuras e a jurarem eterno amor à pátria, entre duas idas à casa de banho. Mas não se apoquentem, camaradas – não se apoquentem nem se amofinem -, porque desde sempre que a minha imaginação me vem pregando partidas.
carlos ponte
Ontem, ao olhar, embevecido, as fotografias do primeiro aniversário do Clube lembrei-me dos legionários do Hotel Bellevue-Stratford. Olho o grupo imenso encostado à parede da antiga Alfândega de Vila do Conde e imagino os velhos lealistas a inflacionarem antigas aventuras e a jurarem eterno amor à pátria, entre duas idas à casa de banho. Mas não se apoquentem, camaradas – não se apoquentem nem se amofinem -, porque desde sempre que a minha imaginação me vem pregando partidas.
carlos ponte
segunda-feira, 5 de março de 2012
A Passarada fez um ano
Passou, rapidamente, um ano de alegre, saudável e estimulante convívio. Finais de tarde esvoaçantes, gorjeios mil e algumas bicadas…
No sábado passado, voámos para sul – ao contrário das nossas irmãs que estão a vir para norte – até Vila do Conde para homenagear José Régio – um pássaro de se lhe tirar o chapéu.
Já vi todas as fotografias que por aí esvoaçam. A Passarada ficou muito bem, com as penas muito reluzentes, com um sorriso a todo o comprimento do bico. Gostei de ver. Nota-se que apreciaram a saída e os sítios que visitaram. Não se vê nas reportagens – e foram tantas as vezes que disseram: Olha o passarinho! – mas o painço do almoço também foi do agrado geral. A organização esteve excelente. Aliás, aproveito para sugerir que o Bento seja eleito o pássaro-organizador de qualquer iniciativa do género.
Estiveram todos – a Lavandisca, o Gavião, o Melro, a Rola-brava, o Pintarroxo, a Carriça, o Tentilhão, o Rouxinol, do bando dos mais antigos, e a passarada mais recente, como a Garça-real, a Alvéola-amarela, a Narceja, o Bico-de-lacre, o Chamariz milheirinho, a Cotovia-de-poupa, o Pisco-de-peito-ruivo e esta vossa,
Escrevedeira
P.S. A Leonor era uma ave de se lhe tirar o chapéu. Estou a adorar. A Teresa não lhe fica nada atrás.
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