Aqui fica a opinião da escritora Hélia Correia a propósito da conversa realizada no passado dia 27 de outubro na Biblioteca Municipal.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
domingo, 21 de outubro de 2012
EU SOU GREGO
Sempre que vou a Lisboa dou um salto ao Bairro Alto: subo a Calçada do Combro, meto pela rua do Poço dos Negros e viro, lá à frente, para a rua de S. Bento. Chegado ao palácio páro junto da escadaria e assesto o ouvido. Ao princípio é apenas um rumor, um som indistinto que parece provir de muito longe, mas logo que os ouvidos conseguem catalogar os mil ruídos da cidade, o som familiar de gritaria aí está para me lembrar que a vida segue o seu curso e eu posso seguir, então, o meu caminho. Lembrei-me desta minha peregrinação quando li o último livro de Hélia Correia, “A Terceira Miséria”. O longo poema começa por uma pergunta tomada de empréstimo ao poeta germânico Friedrich Hölderlin «Para que servem os poetas em tempo de indigência?» Ao longo da leitura do poema fui, paulatinamente, descobrindo a serventia dos poetas nestes tempos de desastre: os poetas servem para dar gritos! Não, claro, para gritarem, que para isso há muitos que o fazem muito melhor do que eles, mas para dar gritos! Gritos que se oiçam em toda a parte: gritos que se oiçam nas ruas, gritos que entrem pelas fábricas e pelas escolas adentro, gritos que despertem as vontades estuporadas, gritos que avivem as memórias, gritos que nos ensinem outra vez a perguntar, gritos que não nos deixem soçobrar, gritos estridentes que consigam, até, trespassar as espessas paredes dos gabinetes asséticos onde “eles” se acoitam. É disso que se trata: do grito que se vai formando nas gargantas da gente do Sul, da gente que um dia ainda se desnorteia.
O poema é também uma homenagem à Grécia à «bela Atenas, a que viu aparecer entre os homens a justiça e a livre palavra». Há dois mil anos, diz-nos Marguerite Yourcenar, o imperador Adriano confidenciava ao seu filho adotivo Marco Aurélio: «Foi em latim que eu administrei o império; o meu epitáfio será inciso em latim nas paredes do meu mausoléu na margem do Tibre, mas é em grego que eu terei pensado e vivido.» A um imperador não é permitido revelar aos súbditos o mais profundo da sua alma por isso Adriano disse assim o seu amor e a sua admiração pela Grécia. Hélia Correia que é imperatriz noutro império que a não obriga a estas reservas di-lo, por isso, com todas as palavras ao longo de todo o poema. E no fim somos todos instados a escolher o nosso lado da barricada: eu sou grego!
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
MANUEL ANTÓNIO PINA
Morreu um homem cuja palavra incomodava muita gente.
A sua inteligência, cultura, coerência, o seu desassombro, o seu inconformismo, a sua forma de estar ncomodavam muitos mais.
As suas crónicas diárias no JN criticavam, desvendavam, atacavam e homenageavam quem merecia.
Dele ficaram belíssimos textos e poemas como este:
TODAS AS PALAVRAS
As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?;
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e como quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.
Por favor, leiam-no.
Isabel Campos
terça-feira, 16 de outubro de 2012
À conversa com... Hélia Correia
Dia 26 de Outubro, às 21.30 horas, na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, vamos conversar com... Hélia Correia, a propósito do livro "A Terceira Miséria".
A Autora
Hélia Correia nasceu em Lisboa.
Licenciada em Filologia Românica, foi professora do ensino secundário. Poetisa
e dramaturga, foi enquanto ficcionista que Hélia Correia se revelou como um dos
nomes mais importantes e originais surgidos durante a década de 80, ao
publicar, em 1981, O Separar das Águas.
Seguiram-se romances como Montedemo, Insânia, A
Casa Eterna (Prémio
Máxima de Literatura, 2000), Lillias Fraser (Prémio de
Ficção do PEN Clube, 2001, e Prémio D. Dinis, 2002), Bastardia (Prémio Máxima de Literatura, 2006), e Adoecer (Prémio da Fundação Inês de Castro,
2012).
Na poesia, tem uma vasta
colaboração em antologias e jornais e publicou obras como A Pequena Morte/Esse Eterno Canto (em díptico com Jaime Rocha) e Apodera-te
de Mim.
A sua escrita para teatro tem
privilegiado os clássicos gregos. Destaca-se Perdição ─ Exercício sobre Antígona, O
Rancor ─ Exercício sobre Helena, e Desmesura
─ Exercício com Medeia.
Para a infância, salienta-se os
livros da colecção Mopsos, o Pequeno Grego: O
Ouro de Delfos e A
Coroa de Olímpia. Destaque também para as suas versões das obras de
Shakespeare, Sonho de Uma Noite de Verão ─ Versão
Infantil e A
Ilha Encantada ─ Versão para Jovens de A
Tempestade. Em 2011 publicou A Chegada de Twainy (infanto-juvenil).
A sua obra mais recente,
publicada em Fevereiro de 2012, intitula-se A Terceira Miséria.
O livro
«O regresso de Hélia Correia à
poesia é um regresso à memória e aos clássicos. É isso que explica o título
deste longo poema dividido em 32 secções: “A terceira miséria é esta, a de
hoje. / A de quem já não ouve nem pergunta. / A de quem não recorda.”» (…)
A «paixão pela Grécia, desde há
muito presente na obra de Hélia Correia, desagua agora neste livro de poesia,
onde a Grécia clássica surge como farol e como impossibilidade: “Para onde
olharemos? Para quem? / Certo é que Atenas se mantém oculta / E de algum modo
intacta, por debaixo / Do alcatrão, do ferro retorcido. / Certo é que nunca
ressuscitará / Visto que nada ressuscita.”»
[Carlos Vaz Marques, TSF]
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
À conversa com... João Ricardo Pedro
Comentário de João Ricardo Pedro a propósito da conversa realizada na
Biblioteca Municipal de Viana do Castelo
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