domingo, 21 de outubro de 2012

EU SOU GREGO


Sempre que vou a Lisboa dou um salto ao Bairro Alto: subo a Calçada do Combro, meto pela rua do Poço dos Negros e viro, lá à frente, para a rua de S. Bento. Chegado ao palácio páro junto da escadaria e assesto o ouvido. Ao princípio é apenas um rumor, um som indistinto que parece provir de muito longe, mas logo que os ouvidos conseguem catalogar os mil ruídos da cidade, o som familiar de gritaria aí está para me lembrar que a vida segue o seu curso e eu posso seguir, então, o meu caminho. Lembrei-me desta minha peregrinação quando li o último livro de Hélia Correia, “A Terceira Miséria”. O longo poema começa por uma pergunta tomada de empréstimo ao poeta germânico  Friedrich Hölderlin «Para que servem os poetas em tempo de indigência?» Ao longo da leitura do poema fui, paulatinamente, descobrindo a serventia dos poetas nestes tempos de desastre: os poetas servem para dar gritos! Não, claro, para gritarem, que para isso há muitos que o fazem muito melhor do que eles, mas para dar gritos! Gritos que se oiçam em toda a parte: gritos que se oiçam nas ruas, gritos que entrem pelas fábricas e pelas escolas adentro, gritos que despertem as vontades estuporadas, gritos que avivem as memórias, gritos que nos ensinem outra vez a perguntar, gritos que não nos deixem soçobrar, gritos estridentes que consigam, até, trespassar as espessas paredes dos gabinetes asséticos onde “eles” se acoitam. É disso que se trata: do grito que se vai formando nas gargantas da gente do Sul, da gente que um dia ainda se desnorteia.
O poema é também uma homenagem à Grécia à «bela Atenas, a que viu aparecer entre os homens a justiça e a livre palavra». Há dois mil anos, diz-nos Marguerite Yourcenar, o imperador Adriano confidenciava ao seu filho adotivo Marco Aurélio: «Foi em latim que eu administrei o império; o meu epitáfio será inciso em latim nas paredes do meu mausoléu na margem do Tibre, mas é em grego que eu terei pensado e vivido.» A um imperador não é permitido revelar aos súbditos o mais profundo da sua alma por isso Adriano disse assim o seu amor e a sua admiração pela Grécia. Hélia Correia que é imperatriz noutro império que a não obriga a estas reservas di-lo, por isso, com todas as palavras ao longo de todo o poema. E no fim somos todos instados a escolher o nosso lado da barricada: eu sou grego!

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

MANUEL ANTÓNIO PINA

        Morreu um homem cuja palavra incomodava muita gente.
        
        A sua inteligência, cultura, coerência, o seu desassombro, o seu inconformismo, a sua forma de estar ncomodavam muitos mais.

        As suas crónicas diárias no JN criticavam, desvendavam, atacavam e homenageavam quem merecia.

        Dele ficaram belíssimos textos e poemas como este:

         
TODAS AS PALAVRAS
As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?;
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e como quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.



                  Por favor, leiam-no.

Isabel Campos

terça-feira, 16 de outubro de 2012

À conversa com... Hélia Correia

Dia 26 de Outubro, às 21.30 horas, na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, vamos conversar com... Hélia Correia, a propósito do livro "A Terceira Miséria".



 
A Autora
 

Hélia Correia nasceu em Lisboa. Licenciada em Filologia Românica, foi professora do ensino secundário. Poetisa e dramaturga, foi enquanto ficcionista que Hélia Correia se revelou como um dos nomes mais importantes e originais surgidos durante a década de 80, ao publicar, em 1981, O Separar das Águas. Seguiram-se romances como Montedemo, Insânia, A Casa Eterna (Prémio Máxima de Literatura, 2000), Lillias Fraser (Prémio de Ficção do PEN Clube, 2001, e Prémio D. Dinis, 2002), Bastardia (Prémio Máxima de Literatura, 2006), e Adoecer (Prémio da Fundação Inês de Castro, 2012).
Na poesia, tem uma vasta colaboração em antologias e jornais e publicou obras como A Pequena Morte/Esse Eterno Canto (em díptico com Jaime Rocha) e Apodera-te de Mim.
A sua escrita para teatro tem privilegiado os clássicos gregos. Destaca-se Perdição ─ Exercício sobre Antígona, O Rancor ─ Exercício sobre Helena, e Desmesura ─ Exercício com Medeia.
Para a infância, salienta-se os livros da colecção Mopsos, o Pequeno Grego: O Ouro de Delfos e A Coroa de Olímpia. Destaque também para as suas versões das obras de Shakespeare, Sonho de Uma Noite de Verão ─ Versão Infantil e A Ilha Encantada ─ Versão para Jovens de A Tempestade. Em 2011 publicou A Chegada de Twainy (infanto-juvenil).
A sua obra mais recente, publicada em Fevereiro de 2012, intitula-se A Terceira Miséria.
 
 

O livro
 
«O regresso de Hélia Correia à poesia é um regresso à memória e aos clássicos. É isso que explica o título deste longo poema dividido em 32 secções: “A terceira miséria é esta, a de hoje. / A de quem já não ouve nem pergunta. / A de quem não recorda.”» (…)
A «paixão pela Grécia, desde há muito presente na obra de Hélia Correia, desagua agora neste livro de poesia, onde a Grécia clássica surge como farol e como impossibilidade: “Para onde olharemos? Para quem? / Certo é que Atenas se mantém oculta / E de algum modo intacta, por debaixo / Do alcatrão, do ferro retorcido. / Certo é que nunca ressuscitará / Visto que nada ressuscita.”»
 
[Carlos Vaz Marques, TSF]



domingo, 23 de setembro de 2012

SÓ TENHO PARA ISTO UM ADJETIVO


No ecrã, o recém-empossado Presidente da Junta de Salvação Nacional, o general António de Spínola, preparava-se para se dirigir ao País. Dois homens à sua esquerda. Três homens à sua direita. Tudo gente das cavalarias, das armadas, dos esquadrões. Gente séria, com toda a certeza. Estamos bem entregues. Diversidade nos penteados, pelo menos. Já é um começo, já é um começo.
«Graças a Deus», pensou ainda o Doutor Augusto Mendes, dirigindo-se ao recém-empossado Presidente da Junta de Salvação Nacional, «tiveste o bom senso de não aparecer com o teu ridículo monóculo. Ou as letrinhas do comunicado são assim tão miudinhas? Não me digas que te viste obrigado, à última da hora, a usar os óculos de ver ao perto? Não acredito. Ai, deves ter ficado tão fodido quando percebeste que não podias aparecer neste momento histórico com o teu ridículo monóculo. Quem é que escreveu esta merda? Só vejo mosquitos, porra. Tragam-me os óculos».
Ontem, quando acabei de ler o livro de estreia de João Ricardo Pedro, lembrei-me de outro almirante. Não um almirante daquela armada séria que apaziguava os temores do doutor Augusto Mendes mas de outra que gostava tanto da água como qualquer gato vadio. Um almirante que, durante dezasseis longos anos, nos habituamos a ver, tesoura em punho, segando tudo o que lhe estendessem à frente. Conta-se que, na inauguração de uma obra qualquer do regime, depois de, com ar entendido, ter admirado a construção, sentenciou: «Só tenho para isto um adjetivo: gostei!»
A obra estende-se por três gerações: o avô, Doutor Augusto Mendes, médico, de boas famílias da cidade do Porto, que um dia, cansado da vida atribulada do hospital, decidiu aventurar-se para lá do Fundão, passando Alpedrinha, na casa do demónio de onde até as cobras fogem, para ser apenas um médico de aldeia; António, o filho, acossado pelos demónios da guerra colonial. Aldeias inteiras. Mães aos gritos. Palhotas, estás a ver? Ardiam num fósforo. Os corpos demoravam mais tempo. O cheiro; e Duarte, o neto, um exímio pianista, tentando desenvencilhar-se neste ambiente que, como diria o poeta, paira à tona de água, com a mãe a lutar para que tudo não se afunde definitivamente: «Eu estou a morrer, Duarte. E o teu pai ama-te muito, e vai precisar muito de ti. Tens de o tentar compreender…».
Pelas páginas do livro perpassam os êxitos e as adversidades, talvez mais estas do que aqueles, das três gerações da família. Numa linguagem escorreita, tomamos conhecimento de histórias hilariantes: o episódio do Amável um menino triste, franzino, doente e efeminado que um dia abalou para África e que, apesar dos boatos que o davam rico com propriedades imensas no norte de Angola e mais de quinhentos pretos ao seu serviço, regressou, vinte anos depois, como tinha partido e, se possível, ainda mais amarelento. Condoída pelo seu estado, toda a aldeia para lá do Fundão, ainda depois de Alpedrinha, meteu mãos à obra e em cinco dias reconstruiu a casa que tinha sido dos pais. Mas o Amável não dava sinal de melhora, cada dia mais débil, mais febril, até que o obrigaram a ir ao consultório do Doutor Augusto Mendes. Com o conhecimento de quase sessenta anos de prática clínica e algumas apalpadelas, o médico sentenciou que o seu problema estava na “tripa”. Mandou-o baixar as calças e colocar-se de gatas, e aviou-lhe um valente clister. Depois de devidamente esvaziado pode verificar-se que o causador de tamanho desarranjo tinha sido um saquinho de plástico cheio de diamantes. O livro fala-nos, até, dos inolvidáveis golos do Mário Kempes no campeonato do mundo de setenta e oito e do valente Manuel Zeferino que, não sendo um Nicolau nem um Trindade e muito menos um Agostinho, bastava olhar para ele para se ver que era bom rapaz.
Fala de tudo isto e de muito mais. E fala, ainda, das mulheres. Uma homenagem às mulheres. De capítulo inteiro. Um quase poema com algo de épico a fazer lembrar aqueloutro que fala da Luísa da Calçada de Carriche. Uma homenagem ao trabalho, à coragem e à sabedoria das mulheres e que termina assim: «Tenho um cancro.» Encostou a mão ao seio esquerdo e disse: «Aqui.» Depois disse: «Vou ser operada na segunda feira, amanhã dou entrada no hospital.» Depois disse: «A despensa está cheia, fiz bacalhau com natas, que está no congelador, e uma panela de sopa.» Depois disse: «No congelador também há bifes e hambúrgueres e costeletas.» Depois disse: «Devo ficar internada, pelo menos, uma semana depois logo se vê.» Não disse mais nada.
Pese embora a obstinação da Dona Laura, deixando bem claro que o que quer que estivesse a acontecer no País, ali em casa tudo permaneceria na mesma, pela obra parece perpassar uma certa mágoa pela chegada tardia do 25 de Abril. Policarpo, que anos antes tinha trocado o país pela civilizada Europa de Newton, Lavoisier e Descartes, a bendita Europa, que, se formos a ver, só começa em atravessando os Pirenéus, escreveria ao amigo Augusto depois da revolução: «Agora já estou velho, já não volto. Agora já é tarde.»

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

À conversa com... João Ricardo Pedro

Dia 28 de Setembro, às 21.30 horas, na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, vamos conversar com... João Ricardo Pedro, a propósito do livro "O teu rosto será o último".

O Autor


João Ricardo Pedro nasceu em 1973, na Reboleira, Amadora. Curioso acerca da força de Lorentz, licenciou-se em Engenharia Eletrotécnica pelo Instituto Superior Técnico. Durante mais de uma década, trabalhou em telecomunicações sem, no entanto, alguma vez ter aplicado as admiráveis equações de Maxwell. Na primavera de 2009, em consequência do carácter caprichoso dos mercados, achou-se com mais tempo do que aquele de que necessitava para cumprir as obrigações do quotidiano. Num acesso de pragmatismo, começou a escrever. O Teu Rosto Será o Último é o seu romance de estreia.


O livro

 
Tudo começa com um homem saindo de casa, armado, numa madrugada fria. Mas do que o move só saberemos quase no fim, por uma carta escrita de outro continente. Ou talvez nem aí. Parece, afinal, mais importante a história do doutor Augusto Mendes, o médico que o tratou quarenta anos antes, quando lho levaram ao consultório muito ferido. Ou do seu filho António, que fez duas comissões em África e conheceu a madrinha de guerra numa livraria. Ou mesmo do neto, Duarte, que um dia andou de bicicleta todo nu.
 
Através de episódios aparentemente autónomos - e tendo como ponto de partida a Revolução de 1974 -, este romance constrói a história de uma família marcada pelos longos anos de ditadura, pela repressão política, pela guerra colonial.

Duarte, cuja infância se desenrola já sob os auspícios de Abril, cresce envolto nessas memórias alheias - muitas vezes traumáticas, muitas vezes obscuras - que formam uma espécie de trama onde um qualquer segredo se esconde. Dotado de enorme talento, pianista precoce e prodigioso, afigura-se como o elemento capaz de suscitar todas as esperanças. Mas terá a sua arte essa capacidade redentora, ou revelar-se-á, ela própria, lugar propício a novos e inesperados conflitos?