Reproduzimos aqui a opinião da escritora Teolinda Gersão a propósito da conversa realizada no passado dia 23 de Novembro na Biblioteca Municipal.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
À conversa com... Teolinda Gersão
Dia 23 de novembro, às 21.30 horas, na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, vamos conversar com... Teolinda Gersão, a propósito do livro "A Cidade de Ulisses".
A Autora
Escritora portuguesa, nascida em
1940, formada em Filologia Germânica em Coimbra. Doutorada em 1976 e professora
catedrática da Universidade Nova de Lisboa, foi leitora de Português na
Universidade de Berlim e assistente na Faculdade de Letras de Lisboa. Autora de
vários trabalhos de crítica literária, recebeu duas vezes o prémio de ficção
PEN Clube, atribuído ao seu livro de estreia, O Silêncio, em 1981, e ao romance
O Cavalo de Sol, em 1989. Foi também galardoada com o Grande Prémio da
Associação Portuguesa de Escritores em 1995 e, na Roménia, com o Prémio de
Teatro Marele do Festival de Bucareste (adaptação da obra ao teatro) com o
romance A Casa da Cabeça de Cavalo. Em maio de 2003, o seu livro Histórias de
Ver e Andar foi galardoado com o Grande Prémio do Conto 2002 Camilo Castelo
Branco, da Associação Portuguesa de Escritores. A ficção de Teolinda Gersão
desenvolve, na escrita contemporânea, uma poética romanesca original, abrindo a
narração, a que o respeito pelas categorias de espaço, tempo, personagens,
intriga confere certa verosimilhança, a uma irradiação de sentidos que decorre
de um metaforismo assumido de forma estrutural pela narrativa. Não que as
personagens e as suas relações, os temas ou os seres se reduzam a um carácter
alegórico: o que ressalta é que por detrás da "história" estão em
conflito pulsões humanas universais, frequentemente centradas sobre a dinâmica
dos opostos (homem/mulher, caos/cosmos, racionalidade/loucura, entre outros). A
ilusão da transparência, obtida por uma ordem sintagmática nítida, pela
simplicidade da frase, despojada de tudo o que é acessório, pela redução do
número de personagens, pela simplificação da ação, confere, então, às suas
narrativas o estatuto de uma escrita mítica, cujo objetivo não é a representação,
mas o conhecimento. Ao mesmo tempo, cada uma das suas narrativas, desenvolvendo
até à exaustão algumas metáforas centrais (o cavalo, o teclado, etc.), desfibra
todo o tipo de alienação social e mental subjacente à rutura dos princípios de
harmonia invisível e de unidade íntima do homem com o universo. Como a pianista
(e a romancista) de Os Teclados, Teolinda Gersão, diante de um "mundo
fragmentário" e "indiferente", onde "as pessoas não
formavam comunidades e só havia valores de troca", um "mundo
vazio", persiste em tentar desvendar enigmas, como se a escrita e a
exigência de rigor fossem "a transcendência que restava":
"Aceitar o nada, o mundo vazio. E apesar disso, pensou levantando-se e
sentando-se no banco - apesar disso sentar-se e tocar."
O Livro
Um homem e uma mulher
encontram-se e amam-se em Lisboa. A sua história, que é também uma história de
amor por uma cidade, levará o leitor a percorrer múltiplos caminhos, entre os
mitos e a História, a realidade e o desejo, a literatura e as artes plásticas,
o passado e o presente, as relações entre homens e mulheres, a crise
civilizacional e a necessidade de repensar o mundo.
«Os turistas vão à procura de
lugares para fugirem de si próprios, e logo os trocam por outros e fogem para
mais longe. Os viajantes vão à procura de si noutros lugares, e nenhum esforço
lhes parece demasiado e nenhum passo excessivo, tão grande é o desejo de
chegarem ao seu destino. Com sorte conseguem encontrar a cidade que procuram.
Ao menos uma vez na vida.»
A opinião de Hélia Correia sobre a conversa
Aqui fica a opinião da escritora Hélia Correia a propósito da conversa realizada no passado dia 27 de outubro na Biblioteca Municipal.
domingo, 21 de outubro de 2012
EU SOU GREGO
Sempre que vou a Lisboa dou um salto ao Bairro Alto: subo a Calçada do Combro, meto pela rua do Poço dos Negros e viro, lá à frente, para a rua de S. Bento. Chegado ao palácio páro junto da escadaria e assesto o ouvido. Ao princípio é apenas um rumor, um som indistinto que parece provir de muito longe, mas logo que os ouvidos conseguem catalogar os mil ruídos da cidade, o som familiar de gritaria aí está para me lembrar que a vida segue o seu curso e eu posso seguir, então, o meu caminho. Lembrei-me desta minha peregrinação quando li o último livro de Hélia Correia, “A Terceira Miséria”. O longo poema começa por uma pergunta tomada de empréstimo ao poeta germânico Friedrich Hölderlin «Para que servem os poetas em tempo de indigência?» Ao longo da leitura do poema fui, paulatinamente, descobrindo a serventia dos poetas nestes tempos de desastre: os poetas servem para dar gritos! Não, claro, para gritarem, que para isso há muitos que o fazem muito melhor do que eles, mas para dar gritos! Gritos que se oiçam em toda a parte: gritos que se oiçam nas ruas, gritos que entrem pelas fábricas e pelas escolas adentro, gritos que despertem as vontades estuporadas, gritos que avivem as memórias, gritos que nos ensinem outra vez a perguntar, gritos que não nos deixem soçobrar, gritos estridentes que consigam, até, trespassar as espessas paredes dos gabinetes asséticos onde “eles” se acoitam. É disso que se trata: do grito que se vai formando nas gargantas da gente do Sul, da gente que um dia ainda se desnorteia.
O poema é também uma homenagem à Grécia à «bela Atenas, a que viu aparecer entre os homens a justiça e a livre palavra». Há dois mil anos, diz-nos Marguerite Yourcenar, o imperador Adriano confidenciava ao seu filho adotivo Marco Aurélio: «Foi em latim que eu administrei o império; o meu epitáfio será inciso em latim nas paredes do meu mausoléu na margem do Tibre, mas é em grego que eu terei pensado e vivido.» A um imperador não é permitido revelar aos súbditos o mais profundo da sua alma por isso Adriano disse assim o seu amor e a sua admiração pela Grécia. Hélia Correia que é imperatriz noutro império que a não obriga a estas reservas di-lo, por isso, com todas as palavras ao longo de todo o poema. E no fim somos todos instados a escolher o nosso lado da barricada: eu sou grego!
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
MANUEL ANTÓNIO PINA
Morreu um homem cuja palavra incomodava muita gente.
A sua inteligência, cultura, coerência, o seu desassombro, o seu inconformismo, a sua forma de estar ncomodavam muitos mais.
As suas crónicas diárias no JN criticavam, desvendavam, atacavam e homenageavam quem merecia.
Dele ficaram belíssimos textos e poemas como este:
TODAS AS PALAVRAS
As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?;
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e como quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.
Por favor, leiam-no.
Isabel Campos
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