quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
ENQUANTO O PRÓXIMO CONVIDADO NÃO CHEGA
«Desenhámos com um graveto na areia molhada a viagem de Ulisses: navegara pelo Mediterrâneo, ultrapassando o Estreito de Gibraltar (Colunas de Hércules, diziam os antigos), contornando um pedaço do sul da Ibéria, passando pelo que depois seria o Algarve. Subiria ao longo da costa, talvez aportasse no que depois seria Alcácer do Sal ou logo a seguir no porto de Setúbal, chegaria a Lisboa, entraria a barra, subiria o rio desde a foz até ao Mar da Palha, onde o rio ainda salgado se espraia como um pequeno mar interior, que lhe lembraria o Mediterrâneo. E antes ou depois (mas provavelmente antes) de dar a esse lugar aprazível o seu nome, Ulisseum, teria navegado diante de Setúbal até Tróia, que então, na ausência do posterior assoreamento, ainda seria uma ilha.»
Enquanto o próximo convidado não chega folheemos de novo “A Cidade de Ulisses”. O último livro de Teolinda Gersão é, também, um livro de viagens, um livro de muitas viagens. Das viagens de Ulisses da guerra de Tróia ao regresso a Ítaca, das viagens de «um pequeno país de 89 mil quilómetros quadrados [que] colocou padrões de pedra, símbolo da sua presença e do seu domínio, numa área vastíssima do planeta […] do Atlântico ao Índico e ao Pacífico» e que malbaratou uma e outra vez as riquezas incomensuráveis que ia obtendo e é também uma viagem por Lisboa pela Ulisseum de Ulisses, «transformada depois em Olisipo através de uma etimologia improvável.» Uma viagem não de turista, uma viagem de viajante porque «o turista vai à procura de lugares para fugir de si próprio, da rotina, do stress, da infelicidade, do tédio, da velhice, da morte. Vê os lugares onde chega apenas de relance e não fica a conhecer nenhum, porque logo os troca por outros e foge para mais longe. O viajante vai à procura de si, noutros lugares que fica a conhecer profundamente porque nenhum esforço lhe parece demasiado e nenhum passo excessivo, tão grande é o desejo de se encontrar. As agências de viagens e os turistas só se interessam, obviamente, pelas cidades reais. Os viajantes referem as cidades imaginadas. Com sorte, conseguem encontrá-las. Ao menos uma vez na vida.»
Enquanto o próximo convidado não chega, dizia, deliciemo-nos com esta outra maravilhosa viagem por Lisboa.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Teolinda Gersão
Reproduzimos aqui a opinião da escritora Teolinda Gersão a propósito da conversa realizada no passado dia 23 de Novembro na Biblioteca Municipal.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
À conversa com... Teolinda Gersão
Dia 23 de novembro, às 21.30 horas, na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, vamos conversar com... Teolinda Gersão, a propósito do livro "A Cidade de Ulisses".
A Autora
Escritora portuguesa, nascida em
1940, formada em Filologia Germânica em Coimbra. Doutorada em 1976 e professora
catedrática da Universidade Nova de Lisboa, foi leitora de Português na
Universidade de Berlim e assistente na Faculdade de Letras de Lisboa. Autora de
vários trabalhos de crítica literária, recebeu duas vezes o prémio de ficção
PEN Clube, atribuído ao seu livro de estreia, O Silêncio, em 1981, e ao romance
O Cavalo de Sol, em 1989. Foi também galardoada com o Grande Prémio da
Associação Portuguesa de Escritores em 1995 e, na Roménia, com o Prémio de
Teatro Marele do Festival de Bucareste (adaptação da obra ao teatro) com o
romance A Casa da Cabeça de Cavalo. Em maio de 2003, o seu livro Histórias de
Ver e Andar foi galardoado com o Grande Prémio do Conto 2002 Camilo Castelo
Branco, da Associação Portuguesa de Escritores. A ficção de Teolinda Gersão
desenvolve, na escrita contemporânea, uma poética romanesca original, abrindo a
narração, a que o respeito pelas categorias de espaço, tempo, personagens,
intriga confere certa verosimilhança, a uma irradiação de sentidos que decorre
de um metaforismo assumido de forma estrutural pela narrativa. Não que as
personagens e as suas relações, os temas ou os seres se reduzam a um carácter
alegórico: o que ressalta é que por detrás da "história" estão em
conflito pulsões humanas universais, frequentemente centradas sobre a dinâmica
dos opostos (homem/mulher, caos/cosmos, racionalidade/loucura, entre outros). A
ilusão da transparência, obtida por uma ordem sintagmática nítida, pela
simplicidade da frase, despojada de tudo o que é acessório, pela redução do
número de personagens, pela simplificação da ação, confere, então, às suas
narrativas o estatuto de uma escrita mítica, cujo objetivo não é a representação,
mas o conhecimento. Ao mesmo tempo, cada uma das suas narrativas, desenvolvendo
até à exaustão algumas metáforas centrais (o cavalo, o teclado, etc.), desfibra
todo o tipo de alienação social e mental subjacente à rutura dos princípios de
harmonia invisível e de unidade íntima do homem com o universo. Como a pianista
(e a romancista) de Os Teclados, Teolinda Gersão, diante de um "mundo
fragmentário" e "indiferente", onde "as pessoas não
formavam comunidades e só havia valores de troca", um "mundo
vazio", persiste em tentar desvendar enigmas, como se a escrita e a
exigência de rigor fossem "a transcendência que restava":
"Aceitar o nada, o mundo vazio. E apesar disso, pensou levantando-se e
sentando-se no banco - apesar disso sentar-se e tocar."
O Livro
Um homem e uma mulher
encontram-se e amam-se em Lisboa. A sua história, que é também uma história de
amor por uma cidade, levará o leitor a percorrer múltiplos caminhos, entre os
mitos e a História, a realidade e o desejo, a literatura e as artes plásticas,
o passado e o presente, as relações entre homens e mulheres, a crise
civilizacional e a necessidade de repensar o mundo.
«Os turistas vão à procura de
lugares para fugirem de si próprios, e logo os trocam por outros e fogem para
mais longe. Os viajantes vão à procura de si noutros lugares, e nenhum esforço
lhes parece demasiado e nenhum passo excessivo, tão grande é o desejo de
chegarem ao seu destino. Com sorte conseguem encontrar a cidade que procuram.
Ao menos uma vez na vida.»
A opinião de Hélia Correia sobre a conversa
Aqui fica a opinião da escritora Hélia Correia a propósito da conversa realizada no passado dia 27 de outubro na Biblioteca Municipal.
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