sábado, 21 de dezembro de 2013

PÔS-SE A CANTAR, COMO LÁ NA ALDEIA.

[…]
Era a véspera do Natal. Às dez e meia, o patrão mandou-o deitar e saiu.
Que alegria estar só!
Não lhe deixavam luz; mas que importava? Às escuras armaria o presépio. E logo principiou. Enrolou o moinho, pôs-lhe as velas; esticou o papel azul que fingia o céu e pregou nele com um alfinete a meia Lua; espalhou o vidro moído, num S em volta das palhas; dispôs as figurinhas, suspendeu os anjos. Depois fez uma carreira de fósforos de cera, que todos se haviam de acender ao mesmo tempo, num deslumbramento, quando desse meia noite.
Deram onze e três quartos.
Ajoelhou.
Batia-lhe o coração, que lhe parecia que deviam de ser milagrosas as figurinhas, que delas lhe viria algum bem, consolação da sua vida triste.
Que seria quando ele iluminasse o desvão da escada e os santinhos se pusessem todos a luzir quase tanto como os verdadeiros? Rezava-lhes… rezava-lhes… Àquela hora, lá na aldeia, tocavam os sinos alegres e iam ranchos contentes a caminho da igreja. Lá dentro reluzia o trono, e o sacristão muito atarefado ia, vinha…
Meia noite!
Acendeu os fósforos e ficou embasbacado!
Nunca assim vira coisa tão perfeita. Os anjos voavam deveras, os cavalos dos reis galopavam, o rio corria, as velas giravam no moinho e os pontinhos do Menino Jesus sorriam-lhe no rosto a São José e a Nossa Senhora!
Pôs-se a cantar, como lá na aldeia:

Andava nessas campinas,
Esta noite, um querubim.
[…]

“O Presépio”, D. João da Câmara [extrato], in «Gloria in Excelsis,
Histórias Portuguesas de Natal, Antologia», Vasco Graça Moura



quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

À conversa com... Gonçalo M. Tavares

No próximo dia 20 de Dezembro, às 21.30 horas, na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal, iremos conversar com o escritor Gonçalo M. Tavares a propósito do livro "Atlas do Corpo e da Imaginação".
 
O Livro
Atlas do Corpo e da Imaginação é um livro de Gonçalo M. Tavares que atravessa a literatura, o pensamento e as artes, passando pela imagem e por temas como os da identidade, tecnologia; morte e ligações amorosas; cidade, racionalidade e loucura, alimentação e desejo, etc. Centenas de fragmentos que definem um itinerário no meio da confusão do mundo, discurso acompanhado por imagens de "Os Espacialistas", colectivo de artistas plásticos. É um livro para ler e para ser visto e é também, de certa maneira, uma narrativa - com imagens que cruzam, com o texto, os temas centrais da modernidade.
Neste Atlas do Corpo e da Imaginação, Gonçalo M. Tavares revisita ainda a obra de alguns dos mais importantes pensadores contemporâneos, partindo de Bachelard e Wittgenstein, passando depois por Foucault, Hannah Arendt, Roland Barthes, mas também por escritores como Vergílio Ferreira, Llansol ou Lispector, entre muitos outros. Arquitectura, arte, pensamento, dança, teatro, cinema e literatura são disciplinas que atravessam, de forma directa e oblíqua, o livro.
Com o seu espírito claro e lúcido, Gonçalo M. Tavares conduz-nos com precisão e entusiasmo através do labirinto que é o mundo em que vivemos.

 
O Autor
Gonçalo M. Tavares nasceu em 1970, em Luanda. Passou a sua infância em Aveiro. Publicou a sua primeira obra em dezembro de 2001. Editou romances, contos, ensaio, poesia e teatro.
Em Portugal recebeu vários prémios, entre os quais: o Prémio José Saramago 2005 e o Prémio LER/Millennium BCP 2004, com o romance Jerusalém; o Grande Prémio de Conto da Associação Portuguesa de Escritores "Camilo Castelo Branco" com Água, Cão, Cavalo, Cabeça.
Prémios internacionais: Prémio Portugal Telecom 2007 (Brasil); Prémio Internazionale Trieste 2008 (Itália); Prémio Belgrado Poesia 2009 (Sérvia); Nomeado para o Prix Cévennes 2009 - Prémio para o melhor romance europeu (França)., Grand Prix Littéraire du Web-Culture  2010 (França), Prix Littéraire Européen 2011 (França).
O seu livro Uma Viagem à India recebeu, entre outros, o Grande Prémio de Romance e Novela APE 2011. Os seus livros deram origem, em diferentes países, a diversos trabalhos artísticos e académicos. Está traduzido em cerca de 45 países.
Jerusalém foi o romance mais escolhido pelos críticos do Público para "Livro da Década".
Os seus livros deram origem, em diferentes países, a peças de teatro, peças radiofónicas, curtas-metragens e objectos de artes plásticas, dança, vídeos de arte, ópera, performances, projectos de arquitectura, teses académicas, entre outras obras.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

À conversa com... J. Rentes de Carvalho

No próximo dia 22 de Novembro, às 21.30 horas, na Biblioteca Municipal, iremos conversar com o escritor J. Rentes de Carvalho a propósito do livro "Mentiras & Diamantes".
 
O Livro
Jorge  Ferreira,  «o  conde»,  recebe  na  sua  quinta  algarvia  uma  jovem  e bela inquilina inglesa,  que pretende  escrever  um livro.  O anfitrião  é  um homem  educado,  atraente  e  rico, mas  em  extremo  reservado  –  não  se lhe conhecem amigos, amantes ou  relações familiares  –, que partilha a grande  casa  senhorial  com  duas  amas  e  uma  governanta.  O  seu passado  esconde  um  trauma  que  o  acompanha  até  hoje  e  que  ele pretende eliminar da memória. Pelo contrário, Sarah Langton, filha de um milionário italiano,  é impulsiva e  aventureira,  «viciada em liberdade»  –  o que não  consegue  conciliar  com a  reclusão e a disciplina que a escrita exige. Tudo  parece  concorrer  para  que  estas  duas  personagens  se aproximem lentamente e que comecem  a processar o que as atormenta (a  Jorge,  os  episódios  do  passado;  a  Sarah,  extrema  dificuldade  em escrever  alguma  coisa  pertinente  para  o  seu  livro  misterioso).  Mas  a  súbita  visita  de  «Biafra»  –  «vistoso  fato  de  linho  branco,  cravo  na botoeira,  panamá  na  mão»  –,  que  vem  para  tentar  uma  pequena chantagem,  dá  lugar  a  uma  cascata  de  revelações,  desenlaces, homicídios,  suicídios  e  desaparecimentos  entre  a  Nigéria,  Marrocos, Algarve,  Londres  e  Amsterdão,  tendo  como  pano  de  fundo  o  tráfico  de diamantes e um país corrupto e corrompido, entregue aos seus segredos  de família. Mentiras & Diamantes, o mais recente e inédito romance de J. Rentes de Carvalho, é  um thriller  habilmente construído e uma narrativa implacável, violenta e sexy. E um maravilhosamente obscuro objeto de suspense.
 

O Autor
J. Rentes de Carvalho nasceu em 1930, em Vila Nova de Gaia, onde viveu até 1945.  Obrigado  a  abandonar  o  país  por  motivos  políticos,  viveu  no  Rio  de Janeiro,  em  São  Paulo,  Nova  Iorque  e  Paris.  Em  1956  passou  a  viver  em Amesterdão, na Holanda, como assessor do adido comercial da Embaixada do Brasil.  Licenciou-se  (com  uma  tese  sobre  Raul  Brandão)  na  Universidade  de Amesterdão, onde foi docente de Literatura Portuguesa entre 1964 e 1988. Em 2012 foi galardoado com o Grande Prémio de Literatura Biográfica APE/Câmara Municipal  de  Castelo  Branco  2010-2011  com  o  livro  Tempo  Contado.  Os  seus livros  Com os Holandeses,  Ernestina,  A Amante Holandesa,  Tempo Contado,  La Coca,  Os  Lindos  Braços  da  Júlia  da  Farmácia,  O  Rebate,  Mazagran e  agora Mentiras & Diamantes estão atualmente disponíveis na Quetzal, que continuará a publicar o conjunto das suas obras.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

À conversa com... Francisco Azevedo

Mensagem do escritor Francisco Azevedo a propósito da conversa realizada no dia 25 de Outubro, na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, quando do lançamento do seu livro "Arroz de Palma".



Francisco Azevedo em Viana do Castelo

Fotos da sessão de lançamento do livro "Arroz de Palma", do escritor Francisco Azevedo, na Biblioteca Municipal (25 Out.2013).





 
 

 
 
 
 

 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

À conversa com... Francisco Azevedo

No próximo dia 25 de Outubro, às 21.30 horas, na Biblioteca Municipal, iremos conversar com Francisco Azevedo que aqui irá apresentar publicamente o seu último livro intitulado "Arroz de Palma" (Porto Editora).
 
Arroz de Palma
Sinopse
A imigração portuguesa no Brasil, no séc. XX, retratada num romance sobre a saga de uma família em busca de um futuro melhor. Ao longo de cem anos acompanhamos as alegrias e tristezas, as discussões e as pazes, as separações e os que são felizes para sempre.
«Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema - principalmente no Natal e no Ano Novo. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir. Preferimos o desconforto do estômago vazio.
 
Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio. Mas a vida - azeitona verde no palito - sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares.»
Aproveite ao máximo.
Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete.
 
O Autor
Dramaturgo, guionista cinematográfico, poeta e ex-diplomata, Francisco José Alonso Vellozo Azevedo nasceu no Rio de Janeiro em 1951. Começou a dedicar-se à literatura em 1967, quando venceu o concurso promovido pela Organização dos Estados Americanos (OEA).
Além de livros e peças de teatro, Francisco Azevedo já escreveu para mais de 250 produções, incluindo roteiros de longa e curta-metragem, documentários premiados e anúncios para televisão.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

À conversa com... Marlene Ferraz

No próximo dia 20 de Setembro, às 21.30 horas, na Biblioteca Municipal, iremos conversar com Marlene Ferraz a propósito do livro "A vida inútil de José Homem" (Prémio literário revelação Agustina Bessa-Luís 2012).

A Autora
 
MARLENE FERRAZ, de 1979, tem os pés pousados em terras a norte. Com o ofício da psicologia, assume um enamoramento imprudente pela escrita.
Tem vindo a dedicar-se particularmente ao conto: «Na Terra dos Homens» (Prémio Miguel Torga 2008), «O Amargo das Laranjas» (Prémio Florêncio Terra 2008), «O Tempo do Senhor Blum e outros contos» (Prémio Afonso Duarte 2012), entre outros. A Vida Inútil de José Homem é o primeiro romance (Prémio Agustina Bessa-Luís 2012).
 
 
O Livro
A Vida Inútil de José Homem de Marlene Ferraz é o primeiro romance de uma autora já várias vezes premiada pela ficção breve. Revelador de uma grande desenvoltura e originalidade na utilização de um vocabulário rico, em vários registos, assim como no desenho das personagens, A Vida Inútil de José Homem narra a história de duas pessoas que, não tendo conhecido o afecto por razões diversas, o aprendem juntas – uma no final da vida, a outra no seu início.
As idas à grande cidade para se libertar da herança de um pai coronel verticalmente duro e de uma mãe extravagante e desligada fazem com que José Homem se sinta no bom caminho para uma morte sem memórias nem saudade. Descrente no governo de deus e, sim, das circunstâncias, é por mão do padre que se vê obrigado a relacionar-se com um dos rapazes estrangeiros recebidos no orfanato, Antonino, mutilado na guerra civil de Angola, o que vem despertar em si um sopro inesperado de amor e vontade.
A Vida Inútil de José Homem de Marlene Ferraz é uma narrativa tocante, que eleva e exalta.




segunda-feira, 8 de julho de 2013

OS DEUSES E OS DEMÓNIOS, O CÉU E A TERRA


Se quiseres partir amanhã
Eu paro o mundo
Pedro Barroso

O escrúpulo de físico que, estou em crer, nunca permitiria a Camarneiro estas liberdades de poeta de parar o mundo, não o impediu, todavia, de começar já a contraí-lo. Não a truncá-lo porque isso resultaria num mundo desequilibrado e esse não é o que nos é mostrado em “Debaixo de Algum Céu” mas, tão só, um mundo encolhido mas perfeito porque obedecendo às regras da proporcionalidade. Lá encontramos todos os ingredientes que tornam perfeito um mundo, a começar por aqueles homens rômbicos [e] mal feitos para encaixar porque nenhum mundo pode ser perfeito se não tiver lugar para homens imperfeitos. Lá encontramos as dúvidas e as inquietações do padre Daniel, tão novo e [com] um mistério tão grande para explicar. Dividido entre um amor impossível e a obrigação de apascentar o rebanho, este pastor de uma paróquia pequena mas devota, como são quase todas as terras onde os homens morrem só de ganhar a vida, jamais conseguirá ultrapassar a dúvida que o assalta uma e outra vez: pode Deus estar certo e mesmo assim não existir? Ele, que humildemente pedirá ao proscrito que um dia lhe perguntou se Deus é como dormir abrigado do vento, que o ensine a pescar, há-de, num acesso de lucidez, confessar-lhe que tem as mãos cansadas de cruzes, fartas de benzer e lançar terra. Lá encontramos os demónios que nos apoquentam: os que se escondem no breu deixado em cada rotação do farol por aquela luz que os homens do mar sabem ler e onde vêem deuses favoráveis, mães e mulheres e o calor que lhes falta, e os que se acoitam na cabeça do pequeno Frederico e lhe ditam as histórias que ele conta com desenhos: cavalos e homens com espadas, céus cor de laranja e mares encapelados. Lá se encontram aqueles que se isolam, que fogem sempre, até que um dia, olhando o mundo, vêem o que nunca tinham intuído e, tal como o jovem David, juram promessas de conversão: Um dia há-de deitar-se cedo e acordar fresco […] Passear junto ao mar, cumprimentar os pescadores e comer pão quente na padaria. Lá encontramos tudo isso e encontramos também a personagem magnífica de Marco Moço, todo cheio de filosofias, construindo um instrumento de imitar a memória enquanto vai imaginando um mundo onde os deuses se pudessem dispensar e todos construíssem máquinas loucas na cave: um motor para retardar o tempo, um projector de sonhos, um realejo que cante poemas sempre novos, um telescópio para olhar o passado, uma máquina de fazer marés. Moço, que podia bem ser um deus se o mundo encolhesse até ao volume do prédio onde vive, com os materiais que o mar cada dia restitui à praia, madeira e ferro e também latas, cordas, plásticos, ramos secos, sapatos, porque tudo se pode encontrar por onde os homens passam, sem pressas, porque as memórias fazem-se de tempo, vai acertando a sua máquina prodigiosa de brisas e tempestades. E encontramos as mulheres, a viúva do Calvinista que, já idosa, Marco Moço e a máquina do vento resgatarão a uma vida de recordações que a trazem manietada e também Manuela dividida entre o prazer do chocolate e o dever fastidioso da casa e do trabalho, olhando, um dia, o espelho na esperança que este não lhe exagere a idade e Constança que sabia de ciência certa que a mama, as fraldas, as roupinhas de criança e as reuniões de trabalho do marido lhe iriam arruinar o casamento porque os homens são também crianças, passam a vida à procura das mulheres sem saberem que o que lhes falta está metido dentro delas. Soubessem eles quantas mulheres dormem dentro de cada uma delas… mas não sabem. E encontramos ainda outras mulheres, Beatriz, a desgraçada Beatriz que morrerá sozinha no meio de toda a gente, e todas as outras, todas as mulheres do mundo que não diferem muito da São, a peixeira que um dia ofereceu uma saca de peixe ao padre Daniel: se gostar dos bichos reze pela minha alminha. O pastor aceita os peixes e talvez pense nessa sabedoria primordial das mulheres que deixa aos homens a manutenção do sagrado, os ritos e as palavras com que se fala a Deus, mas é a voz delas que fala na sua, são seus os rogos e graças, só elas Lhe sabem falar a modo. Parafraseando um tal Mau-Tempo, este livro fala de todos estes e de muitos outros de quem não sabemos os nomes mas conhecemos as vidas. E durante oito dias, debaixo de um pedaço de céu, os sonhos e os pesadelos, a integridade e a vilania, a alegria e a tristeza, a tolerância e o rigor, o jugo e a libertação, o sagrado e o profano, os deuses e os demónios, o céu e a terra.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

À conversa com... Nuno Camarneiro

No próximo dia 19 de Julho, às 21.30 horas, na Biblioteca Municipal, iremos conversar com Nuno Camaneiro a propósito do livro "Debaixo de algum céu" (Prémio LeYa 2012).



Nuno Camarneiro nasceu na Figueira da Foz em 1977. Licenciou-se em Engenharia Física pela Universidade de Coimbra, trabalhou no CERN (Organização Europeia para a Investigação Nuclear) e doutorou-se em Ciência Aplicada ao Património Cultural pela Universidade de Florença. Actualmente desenvolve a sua investigação na Universidade de Aveiro e é docente no Departamento de Ciências da Educação e do Património da Universidade Portucalense.
 
Em 2011 publicou o seu primeiro romance, No Meu Peito Não Cabem Pássaros, saudado pela crítica, publicado também no Brasil e cuja tradução francesa está prevista para breve. Foi o primeiro autor escolhido pela Biblioteca Municipal de Oeiras, parceira portuguesa da iniciativa, para participar no Festival do Primeiro Romance de Chambéry, França. Publicou um texto na prestigiada Nouvelle Revue Française na rubrica Un mot d’ailleurs e tem diversos contos em revistas nacionais e estrangeiras.
 
 
 
 

Sinopse do livro
 
Num prédio encostado à praia, homens, mulheres e crianças – vizinhos que se cruzam mas se desconhecem – andam à procura do que lhes falta: um pouco de paz, de música, de calor, de um deus que lhes sirva. Todas as janelas estão viradas para dentro e até o vento parece soprar em quem lá vive.

Há uma viúva sozinha com um gato, um homem que se esconde a inventar futuros, o bebé que testa os pais desavindos, o reformado que constrói loucuras na cave, uma família quase quase normal, um padre com uma doença de fé, o apartamento vazio cheio dos que o deixaram. O elevador sobe cansado, a menina chora e os canos estrebucham. É esse o som dos dias, porque não há maneira de o medo se fazer ouvir.

A semana em que decorre esta história é bruscamente interrompida por uma tempestade que deixa o prédio sem luz e suspende as vidas das personagens – como uma bolha no tempo que permite pensar, rever o passado, perdoar, reagir, ser também mais vizinho.

Entre o fim de um ano e o começo de outro, tudo pode realmente acontecer – e, pelo meio, nasce Cristo e salva-se um homem. Embora numa cidade de província, e à beira-mar, este prédio fica mesmo ao virar da esquina, talvez o habitemos e não o saibamos.
Com imagens de extraordinário fulgor a que o autor nos habituou com o seu primeiro romance, Debaixo de Algum Céu – obra vencedora do Prémio LeYa em 2012 – retrata de forma límpida e comovente o purgatório que é a vida dos homens e a busca que cada um empreende pela redenção.


Da Declaração do júri da Prémio LeYa 2012:

«A escrita é precisa e flui sem ceder à facilidade, mas reflectindo a consciência de um jogo entre o desejo de chegar ao seu destinatário, o leitor, e um recurso mínimo a artifícios retóricos em que só uma sensibilidade poética eleva e salva a banalidade e os limites do quotidiano.
O júri destacou nesta obra o domínio e a segurança da escrita, a coerência com que é seguido o projecto, a força no desnho das personagens e a humanidade subjacente ao que poderá ser lido como uma alegoria do mundo contemporâneo.»

Manuel Alegre (Presidente), José Carlos Seabra Pereira,
José Castello, Lourenço do Rosário, Nuno Júdice,
Pepetela e Rita Chaves

segunda-feira, 24 de junho de 2013

segunda-feira, 3 de junho de 2013

À conversa com... Domingos Amaral

No próximo dia 21 de Junho, às 21.30 horas, na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal, vamos estar à conversa com DOMINGOS AMARAL a propósito do seu livro O RETRATO DA MÃE DE HITLER.


 

O Livro


No mesmo dia em que Hitler morreu, 30 de abril de 1945, um coronel das SS chamado Manfred apodera-se de um valioso tesouro nazi, roubando um cofre em Munique, que contém alguns bens pessoais do próprio Führer, entre os quais uma pistola dourada e o retrato da mãe de Hitler.

Perseguido pelos judeus, Manfred acaba por chegar a Portugal, onde irá tentar vender o seu tesouro aos colecionadores de relíquias nazis.

Jack Gil Mascarenhas Deane já não trabalha para os serviços secretos ingleses, pois a guerra acabou, mas a chegada do seu pai a Lisboa vai alterar a sua vida. O pai é um colecionador de tesouros nazis e vai obrigar Jack Gil a ajudá-lo na sua demanda pelos valiosos artefactos, que muitos nazis, como Manfred, tentam vender em Lisboa, antes de fugirem para a América do Sul. Dividido entre o desejo de ajudar o pai e o desejo de partir de Lisboa, Jack Gil está também dividido nos seus amores, pois embora esteja apaixonado por Lui¬sinha, uma portuguesa que adora cinema e acredita na democracia, fica perturbado pelo regresso de Alice, o seu amor antigo, uma mulher duvidosa, misteriosa mas entusiasmante, que fora a sua paixão de uns anos antes, e que desaparecera certa noite da sua vida.

 

 

O Autor

 

Domingos Amaral nasceu a 12 de outubro de 1967, em Lisboa. É casado e pai de quatro filhos. Formado em Economia, pela Universidade Católica Portuguesa, onde é atualmente professor da cadeira de Economia do Desporto, tem também um mestrado em Relações Económicas Internacionais pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque.

Durante muitos anos foi jornalista, primeiro no jornal O Independente, onde trabalhou 11 anos; tendo depois sido diretor das revistas Maxmen, durante sete anos, e GQ, por quatro anos. Além disso colaborou como cronista em diversos jornais e revistas. Já tem sete romances publicados, todos na Casa das Letras: Amor à Primeira VistaO Fanático do SushiOs Cavaleiros de São João Baptista,Enquanto Salazar Dormia (já editado no Brasil, Polónia e Itália), Já Ninguém Morre de AmorQuando Lisboa Tremeu (também editado no Brasil) e Verão Quente. Editou igualmente o livro de crónicas Cozido à Portuguesa, e um livro sobre economia do futebol, com o título Porque é que o FC Porto é campeão e o Benfica só ganha Taças da Liga?